Criando espaço
As peças de Natal são fascinantes exercícios de imaginação. Uma das minhas personagens favoritas de todos os tempos das peças de Natal na Índia tem sido o fictício “estalajadeiro” que recusa um lugar para José e Maria na “estalagem”. É claro que esta é uma tradição “extra-bíblica”, porque os próprios evangelhos não mencionam o estalajadeiro, mas apenas que Jesus nasceu em uma manjedoura, pois não havia lugar para ele na “pousada”. Há mais na palavra “pousada” do que se vê no texto bíblico. Uma “estalagem” no contexto palestiniano era provavelmente um quarto individual, um espaço comum que não permitiria a privacidade necessária para o parto de um bebé. Nesse contexto, tendo em conta os constrangimentos de espaço num local já repleto de pessoas (por causa do registo fiscal ordenado pelo império romano), e reconhecendo a necessidade de Maria, fazer da manjedoura uma maternidade improvisada parece um golpe de mestre da imaginação. Sempre me pergunto quem esteve por trás da decisão de permitir que Maria desse à luz Jesus numa manjedoura, embora seja fácil branqueá-la teologicamente como o cumprimento da profecia. Era o dono da pousada que normalmente seria um homem, ou sua esposa ou toda a sua família? Seja quem for, o que parece transmitido é uma resoluta relutância em deixar que os constrangimentos e as circunstâncias tenham a última palavra quando se trata de acolher o estrangeiro. Em um contexto global onde o medo do “outro” alimenta muita xenofobia, ler a história natalina “nas entrelinhas” pode desafiar muitos a exercitar uma imaginação alternativa em meio ao que o estudioso bíblico Walter Bruggeman chama de “nossa política cansada, nossa moral confusa e nossa economia insuportável”, que levam muitos ao desespero e dificultam a descoberta de terreno para novas possibilidades. O sinal da manjedoura é um poderoso antídoto contra a tendência para escapar ao dispendioso compromisso de abraçar o outro, muitas vezes procurando consolo na retórica da escassez e da segurança. Na criação de espaço para acolher o desconhecido, o divino foi acolhido. Há uma troca de hospitalidade à medida que a frágil hospitalidade dos seres humanos encontra a hospitalidade de Deus, que vem até nós em vulnerabilidade. Nesta troca de hospitalidade, encontramos a inspiração para encontrar e não perder, para receber e não rejeitar o divino diante do outro. Em tal abraço reside a promessa da vida em toda a sua plenitude.
Refletir
Cidades em tumulto, os seus cidadãos em tumulto Pelo número de jogos de consciências anestesiadas Reduzido a meras estatísticas Vidas frágeis não encontram segurança nos números Pois, num mundo por ordem de chegada, os que ficam para trás são os fracos e “pesados”
Nesta bagunça A terna misericórdia de Deus rompe Mesmo em noites escuras Em corações sombrios
Terminada com as palavras “não tenhas medo”, A Palavra eterna assume a sua forma Nos espaços que fazemos e nos rostos que abraçamos Como aquele amor perfeito que expulsa todo o medo
Por O Revd Canon Dr Peniel Rajkumar
Teólogo Global e Diretor de Missão Global, USPG